Vocês foram longe demais, galera!
"Performance e seus desdobramentos" é a atual matéria na pós. Acho que não escrevi isso aqui, mas terminei a faculdade ano passado e comecei uma especialização em história da arte (hello! you're being stalked and it's your fault). Voltando. A matéria traz embasamentos teóricos de Cohen e Goffman (só pra citar alguns) sobre a chamada performance social, da qual nenhum de nós escapa, e que serve como base algumas muitas vezes para os performers pensarem seus trabalhos. A questão da arte, para muitos, é tratar do belo. Para outros, é a experimentação. E para mais alguns, o questionamento. Há ainda quem ache que é uma mistura maior ou menor grau dessas três e quem ache que não é porranenhumadisso. Sei que há um princípio de que para discutir a arte contemporânea precisamos de um mínimo de conhecimento sobre as teorias e questionamentos dos artistas, críticos e teóricos de, pelo menos, os últimos 40 anos e então nos posicionarmos, mas nem sempre isso é possível e eu parto do princípio que a arte deve ser voltada para todos, assim como todos deveriam ser voltados para a arte, e isto não é possível todo o tempo em todos os casos, infelizmente. O único preceito que quero trazer aqui é o praticamente unânime: embora os rebuliços iniciados nos meados do século XIX tenham culminado no urinol apresentado por Duchamp para a exposição dos artistas independentes, é este último, "A fonte" assinado por R. Mutt. de 1917 que escancarou a questão da arte a ser discutida até hoje (e que parece que ainda vai ser por um bom tempo). Passando pelas questões "o que é arte?" e "todos são artistas" dos anos seguintes, chegamos às performances que tiveram início - mais ou menos, uma vez que essa catalogação humana da arte é sempre muito discutível - na década de 1950 e seguem até hoje. É aí que mora o problema. Ao permitir que todos fossem artistas, Duchamp deixou a interpretação de que tudo pode ser arte (que levou a questão de arte por nomeação de Don Judd). Isso deixa para alguns mais preguiçosos que qualquer coisa é arte. Há aí uma grande diferença. De “tudo pode ser” para “tudo é” há horas de pensamento que muitos nomeados artistas parecem esquecer ou deixar para depois. Para nunca. Para tudo! Essa bola de neve conceitual e informacional que temos vivido nos últimos 50 anos - e ainda mais forte nos últimos 10 - levou a uma produção frenética de material artístico. Na performance, me parece haver uma linha tênue entre o que é arte de verdade e um charlatonismo. Pode ser aí que morem as questões a serem trabalhadas hoje em dia. Dos tiros em Burden aos implantes venais de Franco B, há comparações óbvias com Jackass e Gordo Freak Show e novamente voltamos ao “tudo pode ser arte”. Cai-se numa arte fácil, banal, que só pode ser chamada de arte se seus posicionamentos assim permitirem. Meu ver é que fazer toda e qualquer coisa e nomeá-la como arte pode até ser válido, mas a desvaloriza em seu estado. Cria-se então um capitalismo da arte, onde algumas coisas passam a valer mais que outras. Onde a arte de uns é “cotada” e a de outros não tem lastro. Talvez seja apenas uma questão de colocar parâmetros. Talvez seja uma questão de liberar tudo ou de negar classificações às coisas. Talvez seja falta de maturidade de uns ou outros é que levam a sério demais. Talvez seja isso que eu pesquise na minha monografia. Mas me parece cada vez mais claro que de duas coisas, uma: ou Marcel Duchamp em sua genialidade já tinha antevisto tudo o que ia acontecer e que acontece até hoje, o ponto insano em que chegou a arte por sua causa, ou ele não tinha noção nenhuma, era um grande zombador e ficaria chocado ao saber que muitos deixaram grandes questões de lado para discutir por um século algo que ele iniciou, argumentou e encerrou o assunto em sua própria obra. E dessas duas, outras duas: Ele está agora em sua tumba mantendo aquele sorriso debochado da sua Monalisa de cu quente. Ou gostaria de voltar em 1917 e falar “foi mal aê, galera, ‘bora voltar pro classicismo”.
Escrito por Rafael às 11h22
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